Buscar
  • Patrícia Mezzomo

A Resistência


Podemos entender o ser humano como um ser dual: o sujeito e o ego. O eu e o outro que vive em mim. 


O ego é dado pelo outro. Ao nascermos, captamos do mundo ao nosso redor, as informações necessárias para compor nosso ego e com isso poder “operar” uma vida relativamente normal. 


Ao mesmo tempo que o ego nos permite viver em sociedade, ele é a representação máxima daquilo que não somos. 


É como se nos tornássemos uma colcha de retalhos de personalidades que pegamos emprestado do Outro (dos outros) e nos continuássemos a partir disso. Continuamos o outro em nós ao invés de sermos nós. 


Nossos desejos, nossa imagem, nossa identidade, tudo é captado de fora, de um exemplo externo e mais importante, em detrimento do nosso verdadeiro Eu, o sujeito oculto, o sujeito assujeitado pelo ego. 


Passamos a vida vivendo a partir do ego, o que significa dizer que passamos a vida vivendo uma vida que não é nossa. Desejando o desejo do outro, sofrendo o sofrimento do outro e fazendo as escolhas do outro. 


Porém, abrir mão disso, ou seja, abrir mão de viver a vida do outro para viver a nossa vida, significa em última instância, abrir mão do outro que habita em nós e que nos “acompanhou” por toda a vida. Significa abrir mão daquilo que o outro queria que fôssemos. 


A resistência de mudar na verdade é a resistência em se entregar ao seu verdadeiro eu, pois isso significa abrir mão de todas as crenças, fantasias e experiências vividas até então. Significaria ir contra o que esperaram de nós em uma instância subjetiva. 


Esperaram de nós uma identidade, um caráter, uma profissão, uma vida social, uma situação financeira e passamos a vida buscando cumprir essas expectativas de um Outro. 


Viver uma vida única e original, viver uma vida a partir do Eu e não do Ego significa desconstruir uma identidade fantasiosa de tudo que acreditamos ser e viver até então. 

Nós não resistimos a quem somos verdadeiramente. Nós resistimos a abrir mão das fantasias de quem acreditávamos que éramos. 


E essa resistência só cederá à medida em que ser o outro for pior que ser nós mesmos. 

30 visualizações